Notícia

Engenharia do Cenpes

Data da publicação: 06/11/2013
Autor(es): Eduardo Henrique

A quem interessa o esvaziamento da Engenharia Básica?

Fortalecer a EB é fortalecer o CENPES, a Petrobrás e o país

Nas últimas semanas, a Engenharia Básica (EB) do CENPES foi questionada quanto a sua competência pelo diretor da ETM (Engenharia, Tecnologia e Materiais), quando, de forma autoritária e burocrática, determinou a transferência de 50% do corpo técnico da EB, durante dois anos, para frentes operacionais e obras.

Os projetos de engenharia básica com aplicação do conhecimento científico na engenharia e na competência operacional materializam-se numa extraordinária vantagem competitiva para as poucas empresas petrolíferas que as dominam. A EB, entretanto, tem sido historicamente combatida, chegando a ser extinta e posteriormente recriada. Como naquele momento, também agora os profissionais resistiram e a decisão das transferências foi revogada. Os trabalhadores organizados, com apoio do Sindipetro-RJ e da AEPET, estão ainda negociando os novos termos das mudanças sugeridas, apresentadas agora com enfoque de RH.

A resistência dos técnicos não é contra a participação dos profissionais da EB nestes locais, onde inclusive têm presença constante, mas sim uma resistência às críticas infundadas, ao esvaziamento, desprestígio e o consequente enfraquecimento das funções da EB na Petrobrás.

Esta é, portanto, resistência às afirmações constantes pela direção da Petrobrás de que os projetos básicos da Petrobrás são apenas projetos acadêmicos e com baixo conteúdo tecnológico. As reiteradas declarações infundadas de que a questão tecnológica tem sido a responsável pela majoração dos custos dos empreendimentos da Petrobrás em relação às referências internacionais.

É a oposição aos descartes de diversas tecnologias proprietárias da Petrobrás em favor de licenciadores externos sob as alegações de agilização e redução dos custos dos empreendimentos.

Por que a direção da Petrobrás têm descartado diversas tecnologias proprietárias em favor de licenciadores externos, tais como os projetos das refinarias Premium 1 e 2?

O Abast decidiu que as tecnologias de refino utilizadas nas refinarias Premium deveriam ser adquiridas de licenciadores estrangeiros, sob o argumento de que as tecnologias proprietárias da Petrobrás encareceriam os empreendimentos. As tecnologias foram licenciadas externamente e as estimativas de custos originais não corresponderam à realidade, hoje o custo esperado é muito superior ao originalmente previsto. Evidenciou-se que a seleção de tecnologias externas não resultou em redução dos custos dos empreendimentos.

Por que se descartou o projeto do processamento de gás natural do pré-sal para a “Rota 3” do Comperj?

O projeto básico do Cenpes, apesar de se enquadrar nas métricas internacionais, foi sumariamente descartado sob a justificativa de aumento do custos. Só que, mesmo as bases de projeto tendo sido completamente alteradas, o Cenpes seguiu excluído da seleção da tecnologia, mais uma vez adquirida externamente.

Por que a priorização da contratação direta de consórcios entre empreiteiras e licenciadores estrangeiros?

Os empreendimentos da Petrobrás têm sido contratados no modelo EPC (Engineering, Procurement and Construction), contratos de amplo escopo que incluem a engenharia de detalhamento, a compra de equipamentos, a construção e a montagem das unidades industriais e, muitas vezes, aquisição de tecnologia.

O modelo contratual de escopo tão amplo beneficia grandes empreiteiras, que se organizam em cartéis e tem forte influência nas politicas públicas, excluindo empresas com menor concentração de capital. Os consórcios entre empreiteiras e licenciadores estrangeiros também dificulta a viabilidade de construtoras menores, cujo acesso a tecnologia estrangeira é mais difícil.

Modelar contratos de menor escopo e maximizar o número de competidores pelo acesso às tecnologias próprias através dos projetos básicos do Cenpes são estratégias promissoras para escapar deste cartel, reduzir custos e aumentar o conteúdo nacional.

Fortalecer a engenharia básica é fortalecer o Cenpes, a Petrobrás e o país. A cobrança à direção é neste momento necessária, assim como reunir todos os esforços e incluir o conjunto dos trabalhadores nesta cobrança. É necessário ampliar a participação, a transparência e traduzir a retórica em atos concretos para o crescimento tecnológico da companhia.

Há quem prefira acusar de xenofobia aqueles que pensam desta maneira.