Foi firme e intensa a trajetória de desenvolvimento das forças produtivas, sociais e políticas dos EUA ao longo do século XIX. A ocupação familiar das terras dos antigos índios exterminados gerou a combinação de um nascente mercado interno com a valorização do trabalho e a instalação de pequenas indústrias e atividades manufatureiras residenciais. Esse movimento foi acompanhado pela ligação do Atlântico ao Pacífico por três linhas ferroviárias, que foram combinadas com o canal do Panamá e a prática conversão do Caribe em mar estadunidense.
Durante todo o séc. XIX, os EUA assumiram e praticaram um projeto nacional de ser potência. Sem restrições e lançando mão desde a compra da Louisiana e do Alasca à conquista militar de uma enorme parcela do antigo Vice-Reinado da Nova Espanha e às intervenções na América Central, os EUA submeteram sua lógica imperial à parte superior do Novo Mundo. E, a partir da instalação do petróleo como vetor combustível e da produção em massa para o mercado interno, foi sede da II Revolução Industrial e deslocou o epicentro do mundo da Grã-Bretanha e da libra para sua hegemonia. Enquanto os EUA desenharam o mapa do Novo Mundo, o Brasil até hoje se mantém com o olhar no além do Atlântico e desatento ao Pacífico.
Ao invés de olhar com desconfiança para a Argentina, em certos casos devemos aprender com seus exemplos: a Argentina sabe que não pode perder reservas internacionais e propôs cortar em até 27,5% as importações de carros. Vejo nisto uma lição.
A Constituição americana, promulgada em 1787, até o presente só foi modificada por 27 emendas, enquanto nós, no Brasil, já tivemos uma sucessão de constituições, sendo que a última, de 1988, foi desmantelada por 75 Emendas e ainda estão em exame 200 propostas de modificação constitucional.
Na perspectiva em relação à história como projeto, não há, entre Brasil e EUA, qualquer convergência. O gigante, sempre foi regido por um Projeto Nacional (ser potência). O Brasil, à exceção de algum discurso faraônico e fora do tempo, somente no período 1930-80 veio a ser balizado por um Projeto Nacional de Desenvolvimento: vencer o atraso e interiorizar a II RI. Mas o Brasil desconheceu os fragmentos da antiga América espanhola e se empenhou em uma política de “má vizinhança” na região do Prata. A história não se repete, nem mesmo como farsa. Num mundo em que a tendência é a conglomeração, o Brasil parece não perceber a Argentina como país parceiro para construir uma Sul América integrada.
De 2008 a 2013, a Argentina teve um importante crescimento do PIB (em três anos, superou 7%). Apesar de uma incômoda inflação de 10%, sua dívida pública bruta, de 2009 a 2013, se encolheu de 58,7% do PIB para 42,4% (apesar de um déficit primário negativo de 0,2% do PIB). Existe, naquele país, um forte subsídio à energia elétrica. O ministro-chefe argentino já declarou: “se as empresas não são capazes de prestar o serviço elétrico, o Estado será capaz de fazê-lo”.
Percorrendo a mídia brasileira, não se vê qualquer destaque à performance argentina, tampouco se fala da imensa importância comercial do país-irmão. Em 2012, 20% das exportações argentinas foram para o Brasil, enquanto 26% de tudo que a Argentina importou vieram do Brasil. A corrente de comércio Brasil-Argentina é mais de duas vezes a corrente de comércio com a China. Em contraste com a diminuição das exportações manufaturadas no Brasil para o mundo, elas prevalecem e crescem no comércio com o país-irmão. Entre veículos e máquinas, o Brasil exporta mais de 54% de todo o seu comércio para o Prata.
É intuitiva e imediatamente comprovável a imensa importância da união comercial do Brasil com a Argentina. É óbvio que a América do Sul, tendo por epicentro a convergência produtiva do Brasil e Argentina, poderá caminhar para a integração sul-americana. Entretanto, prevalece na mídia brasileira a referência ao “fracasso”(?) macroeconômico argentino.
Desde a desvalorização da dívida externa à reversão de algumas privatizações, passando pela tentativa de transferir ganhos agropecuários para a expansão do mercado interno, a Argentina tem procurado um destino econômico próprio. Isto a converte, para a política econômica mundial, num personagem insubordinado e potencialmente rebelde, logo, intolerável. Num Brasil aonde a privatização e a desnacionalização são estimuladas pelo processo político-econômico, a rebeldia do Prata (relativamente bem-sucedida), não deve ser citada nem incorporada ao debate político. Será esta a explicação do silêncio?
A espetacular composição de interesses EUA-Canadá pode ter seu equivalente no Brasil-Argentina, na América do Sul. Este deveria ser o alvo principal da diplomacia econômica brasileira. Se o Brasil vier a ter uma retomada de desenvolvimento, naturalmente a convergência com os interesses do Prata seria dinâmica e acenaria para os demais países sul-americanos.
No momento em que a China se propõe a crescer apoiada em seu mercado interno e pretende disputar o avanço científico e tecnológico, num período em que a Europa claramente involui para uma entropia político-econômica, o Brasil oficial persiste no sonho da “globalização”. Assume o papel de “celeiro do mundo” e convive com frações de população faminta; admite a destruição de empregos de qualidade, a desconstrução de cadeias produtivas e a expansão assustadora das importações. Não avançamos a ideia da integração sul-continental. Não apostamos em saídas para o Pacífico e sequer examinamos a potencialidade da Inter articulação da Venezuela com a Argentina mediada pelo Brasil. É possível um gasoduto que construa uma coluna energética norte-sul e rearticule o panorama de desenvolvimento das forças produtivas de nossa Sul América.
Os EUA construíram uma simbiose com o Canadá. Ao invés de olhar com desconfiança a Argentina, em certos casos devemos aprender com seus exemplos: a argentina sabe que não pode perder reservas internacionais: propôs cortar até 27,5% as importações de automóveis, bem como ampliou os impostos sobre aqueles de valor acima de US$ 34 mil. Vejo nisto uma lição.
Ampliar a pauta do Brasil com os países do Prata e tornar uma realidade o Banco de Desenvolvimento do Mercosul são temas sobre os quais o processo sucessório exigirá definição. Seria desejável, inclusive, o debate sobre a unificação do mercado de trabalho. Se necessário, façamos para isto mais uma Emenda Constitucional.
Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES.
FONTE: Valor Econômico