Artigo

Os desafios gigantescos da Petrobrás

Data da publicação: 03/07/2014
Autor(es): Luís Nassif

O governo Dilma Rousseff comete grandes erros, que ainda lhe serão cobrados – o principal dos quais é a leniência com o rombo das contas externas.

Mas tem grandes acertos, que têm merecido da mídia a mesma cobertura enviesada padrão Copa do Mundo.

Na terça-feira comemorou-se um desses grandes acertos: a aposta feita na Petrobrás com a Lei de Partilha. Naquele dia foi comemorada a produção do pré-sal de 500 mil barris dia. Na Bacia de Campos levou-se 21 anos e 411 poços para atingir a produção de 500 mil barris diários, com uma média de 1.200 bpd por poços. No pré-sal, foram apenas 8 anos e 25 poços, com a média de 20 mil bpd.

Pode-se discordar ideologicamente da Lei, não de seus resultados.

O modelo colocou todas as fichas da exploração do pré-sal na Petrobrás. Ganhou esses poderes para poder implementar a política de conteúdo nacional, visando desenvolver uma cadeia produtiva brasileira.

Foi suficientemente flexível para permitir a participação de empresas estrangeiras; e também para autorizar o governo a ceder áreas à Petrobrás no modelo de concessão onerosa.

Para conferir musculatura à companhia, em 2010 o governo definiu um modelo de capitalização polêmico, integralizando a sua parte através da cessão à Petrobrás de até 5 bilhões de barris de petróleo, ao preço de US$ 8,51 o barril.

Do ponto de vista dos acionistas, a operação não foi bem recebida e resultou em uma queda no valor da ação. Muito em função do estilo Dilma, de não procurar o diálogo e de não ter incluído representantes do mercado de capitais nas discussões do modelo.

Mas também devido ao velho dilema do mercado entre a visão de mais curto prazo do acionista e a de longo prazo da companhia.

Investimentos e endividamento impactam negativamente os resultados de curto prazo da companhia. Mas, na indústria do petróleo, o longo prazo é essencial.

O ponto mais nevrálgico é o nível de reservas de petróleo. Com a primeira licitação vencida pela companhia e a capitalização de 5 bilhões de boe (barril de óleo equivalente) a Petrobrás ficou com 16,2 bilhões de boe. Na semana passada, o governo “vendeu” à Petrobrás mais o equivalente a 15 bilhões de boe, em áreas contíguas às que entraram na capitalização. A informação oficial só será divulgada no próximo ano, mas Dilma antecipou o dado no discurso que fez.

Com essa operação, a empresa ficou com reservas potenciais de cerca de 32 bilhões de boe. Mais que isso, por estar em área contígua, a Petrobrás aproveitará toda a estrutura já montada, antecipando em seis anos o início de operação.

Presidente da Petrobrás, Graça Foster minimiza os riscos de endividamento. Diz que não é para pagar conta, mas para garantir crescimento.

O Conselho de Administração deu prazo de 24 meses para a empresa atingir níveis mais confortáveis de endividamento. Já se passaram 6 meses.

Em 2017 e 2018 vence o grosso da dívida, mas a produção estará maior, assegura Graça. Segundo ela, a partir do ano que vem a Petrobrás terá fluxo de caixa positivo e começará a redução da dívida líquida.

De qualquer modo, a Petrobrás tem dois desafios pela frente, que pouco têm a ver com sua capacidade técnica:

1. Convencer o mercado da consistência financeira do seu plano de negócios.

2. Apresentar um modelo de governança interna que impeça a repetição de episódios como do ex-diretor Paulo Roberto Costa.

FONTE: Jornal GGN