Livro

Exercício político: de sua função essencial a uma realidade preocupante

Um pronunciamento idôneo fundamentado em convicções éticas

Data da publicação: 01/01/2012

Introdução

Edson Monteiro

O fato central desta publicação é a reprodução do discurso proferido pelo então vereador do município do Rio de Janeiro, engenheiro Ricardo Moura de Albuquerque Maranhão, quando de sua despedida do mandato, numa “tarde luminosa de dezembro”, do ano de 2004.

Quis o meu dileto amigo que eu me encarregasse da organização da edição, solicitando-me algumas palavras introdutórias que pudessem — por mais singelas que fossem perante o seu discurso — contribuir com a consciência da importância do fazer política, ao que ele já se entregara como deputado federal no honroso rastro cívico de seu pai, ex-senador Jarbas Maranhão, remanescente único da constituinte Brasileira de 1946.

Ora, organizar a edição me é corriqueiro; eu já o fizera até com o próprio Ricardo Maranhão no seu memorável “Política com dignidade”, Letra Capital (2004). porém, palavras introdutórias — algo, talvez, como um prefácio — é diferente. Não que eu não me atrevesse a fazê-lo — e a prova de que “topei” está aqui —, mas cuidava que se trilhasse com minucioso cuidado o caminho de busca de um aprofundamento compatível e coerente com o discurso memorável deixado por Ricardo Maranhão no plenário do Palácio Pedro Ernesto.

Eu lá me encontrava na ocasião. Sabia — sem conhecer o discurso, é claro — que o pronunciamento seria marcante, tornar-se-ia merecedor do registro que agora se torna acessível ao leitor. E, de fato, assim foi, longe de um desabafo ou de uma trivial e costumeira despedida, uma aula de civismo, de firmeza de caráter, de auto-reconhecimento do papel do representante público, um servidor do povo, um amante da pátria. O leitor haverá de concordar comigo. Agora, quando inicio esta escrita, aproximo-me dos dias finais de 2011. Um dos mais influentes diários de nossa imprensa destaca em manchete: “sem quorum, Câmara do Rio atrasa votações”. A princípio, algo corriqueiro, bem conhecido do inconsciente coletivo que aspira parlamentares presentes e frequentes, mas que acaba se acostumando — é triste dizer-se! — com a obviedade institucionalizada da ausência. Abaixo da manchete, dando cores que envergonham o cidadão usurpado em sua confiança, lê-se: “desde março, só cinco das 78 sessões ordinárias tiveram vereadores suficientes; 128 propostas esperam na ordem do dia”. E aí eu percebo — o que está distante de qualquer ineditismo — o contraste entre o conteúdo do discurso aqui reproduzido e a realidade que se vive no complexo político de nossa municipalidade. As palavras de Ricardo Maranhão demonstram uma atuação comprometida, uma vida de presença, uma representação fundamentada na ética do compromisso de estado, repleta de atitudes de coragem, de convicção política republicana onde o socialismo — sobre o qual ele aprendeu em casa — salta como solução dinâmica, aquela que não se extingue, que converge com a atenção permanente à gente da terra, sobretudo os mais frágeis, os que deveriam ser os privilegiados da política, respeitados acima de tudo, porque deles e para eles devem ser dirigidos os cuidados de uma governança efetivamente democrática.

Os elogios, ditos ou escritos, tangenciam o caminho arriscado do pieguismo. cuido para não mergulhar minhas palavras no campo do ridículo sentimental. Mesmo assim, peço ao leitor que me desconhece e que talvez não conheça mais fortemente Ricardo Maranhão, que aceite por ora minhas palavras, pois estou certo de que mais à frente, na leitura do discurso, será seguro confiar na sua justeza.

Lá, no prefácio da obra acima citada, deixei marcada a minha admiração pelo colega de tantos anos. mencionei que o via como um cidadão grande, no tamanho e nas atitudes. sendo eu uma pessoa baixinha — um metro e sessenta, por aí — natural que o visse assim, grande em qualquer direção. mas no caráter, na obstinação pela coisa séria e justa, somente convivendo. e não se tornou necessário muito tempo para detectar a sua grandeza. Seguramente — e a ele não caberá contestar essa afirmação, sobre a qual assumo toda a responsabilidade —, Ricardo Maranhão é um dos mais exemplares espécimes de político correto de minha geração. tive sorte de conhecê-lo, de com ele conviver durante os dezoito meses finais de seu mandato na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Líder do Partido Socialista Brasileiro, dos inesquecíveis Evandro Lins e Silva, Antonio Houaiss e tantos outros homens que orgulharam a política brasileira com sua sapiência, precisão de justiça e respeito ético, Ricardo deixou em todos os gabinetes, plenários e campos por onde passou — e, felizmente, ainda passa — a marca do civismo, do patriotismo, da independência em relação aos dominadores e seus asseclas, estes seres danosos que se prevalecem do sagrado voto dos incautos para ludibriar o povo e a nação que os viu nascer.

Enfim, segue adiante uma palavra do homem a quem admiro como um ser humano convicto de que a política, malgrado as suas mazelas, é o único caminho disponibilizado à civilização para contorno de seus problemas terrenos. convido o leitor, a leitora, às páginas deste pronunciamento. O faço em coerência com a minha mente e com o meu coração.  Ricardo, aqui, enaltece a política, mas revela a sua preocupação com os caminhos que ela trilha pela insensatez dos que de posse do poder, usam-no para si próprios, ignorando a verdadeira e nobre razão de sua busca.


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