As grandes companhias de petróleo viverão um tempo extraordinariamente difícil tentando manter seus altos pagamentos de dividendos no ambiente de mercado atual. A menos que os preços do petróleo se recuperem substancialmente, elas podem ser forçadas a restringir a remuneração aos acionistas.
Os grandes produtores de petróleo pagam cerca de US $ 40 bilhões em dividendos a cada ano, um nível que não é sustentável com os preços do petróleo em US $ 50 por barril, de acordo com Chris Kettenmann, Macro Risk Advisors. “Há alto risco para a estrutura de dividendos dessas grandes companhias de petróleo ao longo dos próximos 12 meses”, disse Kettenmann à TV Bloomberg.
Desde que os preços do petróleo começaram a cair em meados de 2014, o setor fez várias rodadas de cortes nos programas de despesa e nas folhas de pagamento. Grandes projetos têm sido arquivados por não mais fazerem sentido. O colapso dos preços, a retração extrema nos investimentos em exploração conduziram inevitavelmente a uma queda acentuada em novas descobertas, que em 2015 chegaram ao nível mais baixo em 70 anos. Em 2016, este nível deverá ser ainda menor.
Ao todo, a indústria do petróleo reduziu mais de US $ 1 trilhão em gastos previsto para os anos entre 2015 e 2020. Mas isso ainda não pode ser suficiente para aprumar o navio. Apesar dos cortes, a maioria das grandes companhias de petróleo ainda não está gerando caixa suficiente para cobrir as despesas operacionais e os rendimentos prometidos aos acionistas. Para tapar o buraco e manter as políticas de dividendos, as principais empresas, sem exceção, estão elevando muito o nível de endividamento para conseguir manter a política de pagamento de altos dividendos intacta.
Kettenmann da Marco Risk Advisors, diz que as cinco maiores petrolíferas – ExxonMobil, Royal Dutch Shell, Chevron, Total SA e BP – comprometeram-se a pagar US$ 40 bilhões em dividendos ao longo do próximo ano.
A situação da ExxonMobil é instrutiva. A maior companhia de petróleo de capital aberto no mundo registrou US$ 10,5 bilhões do fluxo de caixa e vendas de ativos no primeiro semestre de 2016, uma soma incrível. Mas isso não foi suficiente para cobrir os US$ 10,3 bilhões dos investimentos, e também os dividendos de US$ 6,2 bilhões a serem pagos aos acionistas. Chris Kettenmann disse na TV Bloomberg que o elevado gasto anual de US$ 12 bilhões está em risco. A Exxon é considerada a mais rica e financeiramente sólida empresa em comparação com seus pares, por isso suas dificuldades são um sinal claro de que a indústria está no meio de turbulência severa. A dívida da Exxon saltou para US $ 44,5 bilhões no final do segundo trimestre de 2016, muito acima dos US $ 33,8 bilhões no ano anterior.
Por agora, a ExxonMobil aparentemente tem a intenção de fazer o que for possível para evitar o corte na sua política de dividendos, que ela e seus pares consideram ser intocável, afinal, altos dividendos são uma forma de atrair investidores. Como não podem oferecer crescimento, oferecem pagamentos generosos e estáveis para os acionistas. No entanto, continuando a pagar tanto para os acionistas, cortam as já tímidas perspectivas de crescimento futuro. ExxonMobil, Shell, BP e os outras das principais empresas arquivaram projetos de perfuração de grande escala e demitiram elevado número de empregados, enquanto se recusam a tocar na política de dividendos. Sem novos projetos, o esgotamento natural vai corroer os níveis de produção ao longo do tempo e a alternativa (dividendos a custa de endividamento) se tornará inviável.
Referindo-se a preferência das empresas para não tocar os seus dividendos, Kettenmann diz que é uma decisão arriscada. “Eles podem ser capazes de tomar emprestado para pagá-lo, mas levantam a questão das fontes e usos de capital”, disse. “Será que você está realmente está gerando valor para a empresa ao gastar US $ 12 bilhões por ano em dividendos aos acionistas em detrimento de investimentos em projetos que podem gerar uma taxa de retorno para os investidores?
Se os preços do petróleo não se recuperarem, algo vai acontecer. Há menos gordura para queimar dentro das empresas; que já arquivaram projetos para os campos de petróleo menos rentáveis e reduziram ao máximo os gastos com fornecedores. Elas também cortaram violentamente na folha de pagamentos. Se os preços do petróleo pairam em torno de US $ 50 por barril por mais um ano, as principais empresas petrolíferas podem não ter escolha a não ser voltar suas atenções para os seus dividendos.
Publicado em inglês em 31/08/2016 em Oilprice.com.