Notícia

Maria Frô: como a militância digital do PT perderá votos em 2014

Data da publicação: 25/10/2013
Autor(es): Maria Frô

Algumas considerações aos governistas pró-leilão que negam o direito de expressão aos que foram contra o leilão

A cultura do bate-boca e da desqualificação nas redes

Mantive o título da Hilde (no texto que reproduzo ao final do meu post), mas não acho que a imensa maioria que defendeu o leilão seja falaciosa conscientemente. Vejo que o amor incondicional ao governo Dilma de parte de uma militância nas redes está impedindo a crítica, mas há mais problemas além da imensa maioria entrar neste debate com o espírito de final FlaXFlu é não entender que a questão é política e não apenas técnica. O governo Dilma fez uma opção desenvolvimentista e não se acanha em fazer uso da lógica do mercado. Nacionalistas como Hilde, Comparato, Ildo, ou petistas como Gabrielli não querem derrubar Dilma, destruir o legado de Lula, mas se opõem a lógica de mercado, porque têm um projeto nacionalista e à esquerda.

Os petistas militantes da rede que se deram ao trabalho de ler sobre a questão usam como argumentos a questão ambiental. Marcos Urupá fez uma síntese que Luiz Müller, ao debater comigo também argumentou:

“Tendo a crer que a realização do leilão de Libra agora pode ter dois motivos:

1- Por conta da gradativa evolução do uso de outras fontes de energias mais limpas, que envolvem tecnologias inovadoras, o pré-sal poderia deixar de ser “bilhete premiado” dentro de algum tempo, e ai o Brasil perderia espaço na correlação de forças mundial sobre as reservas de petróleo;

2 – A Petrobras sozinha não teria condições de realizar esta exploração do petróleo do pré-sal, o que significa uma clara evidência de que não fizemos os investimentos adequados na nossa maior empresa.”

Em relação ao ponto 1 acho, sinceramente, que em 30 anos a energia suja continuará a todo vapor, o capital está se lixando para o meio ambiente. Em relação ao ponto 2, os petroleiros, Gabrielli, Ildo, Fernando Siqueira, Guilherme Estrella entre outros do campo da esquerda argumentam que teriam sim como conseguir recursos. Argumentam com muita propriedade, primeiro porque tecnicamente é a Petrobras que domina a tecnologia de extração em campos profundos, segundo que BNDES não deve servir apenas para socorrer Eikes, Diniz, as Teles e a mídia velha. Qual mercado financeiro recusaria capital farto para quem detém o maior campo de petróleo de primeira linha do mundo?

Mas enfim, o que é inconcebível a meu ver entre os militantes governistas é o modo que tratam os petroleiros e todos no campo da esquerda que se opuseram ao leilão de Libra. Gustavo Gindre fez uma boa síntese do absurdo que foi este debate desqualificador travado nas redes:

Continuo achando que nada a priori pode garantir que Ildo Sauer, Guilherme Estrella, Luiz Pinguelli Rosa e Sérgio Gabrielli estão corretos em sua crítica ao leilão.

Mas, acho que algumas coisas devem ser ponderadas.

Exceto Gabrielli, todos eles são referências internacionais no debate sobre energia. Suas opiniões são tecnicamente respeitáveis.

Todos estão propondo um debate que vai além da questão meramente técnica. Todos defendem uma estratégia geopolítica para o petróleo brasileiro. Não se trata, portanto, de “apenas técnicos” como já li em algum lugar. Há aí um ponto de vista político.

Todos têm profunda relação com o PT. Um deles ainda hoje é filiado ao partido e exerce cargo de secretário estadual no governo da Bahia. Dois eram, até pouco tempo, as principais referências do PT para o debate energético. Não são, portanto, nem a “esquerdalha maluca” nem a “direita golpista”. São pessoas que sempre se viram muito próximas da militância petista.

Eu acho que essas questões somadas deveriam, pelo menos, servir de convite aos petistas para debater o mérito e não entrar nessa onda de desqualificação a priori.

E quando se fala em desqualificação não é pouca coisa. Ao menos no campo da esquerda nunca havia visto (nem contra os inimigos de classe) o baixo nível dos ataques dos governistas que tratam toda a crítica como inimiga: os petroleiros foram chamados de blackbostas, oportunistas, corporativistas. A categoria operária organizada mais nacionalista que conheço foi chamada de entreguista! As pessoas que tentavam argumentar contra o leilão se fossem mulheres (não importa que tivessem 65 anos) foram tratadas de ‘vagabundas‘.

Não printei as barbáries que li que é pra não acirrar ainda mais os requintes de crueldade que transformaram um debate saudável no próprio campo da esquerda num rol de agressões sem limites.

A criminalização de todos que questionam alguma medida do governo Dilma, mesmo os do campo da esquerda

Tenho um irmão petroleiro que virou petista me seguindo ainda moleque nas reuniões e nas bocas de urna efetivas (naquela época não existia balançador de bandeira) onde carregávamos a bandeira do PT orgulhosos e conversávamos com as pessoas mostrando o quanto o PT era diferente dos demais partidos, mesmo sabendo que sem recursos, pequeno e sem alianças o candidato do nosso partido nunca seria eleito, mas acreditávamos que convenceríamos e chorávamos a cada derrota.

Meu irmão petroleiro está na Petrobras desde a escola técnica, seu único emprego de toda uma vida. É petista roxo, nunca pôs em questão as decisões tomadas pelos governos Lula ou Dilma. É dos que ocuparam a Petrobras em 1995 quase sem barba na cara.

Eu vi como em Cubatão a organização dos petroleiros na liderança de toda uma cidade não só impediu que o prefeito vendesse um terreno de preservação ambiental para dar lugar a um pátio de containers como naquela luta pela saúde, pelo meio ambiente e pela qualidade do bairro cujo processo rendeu quatro meses ininterruptos de ocupação (curioso, a moçada acha que a tática de ocupação nasceu em junho, esquecendo que movimentos sociais e sindical fazem isso há pelo menos 3 séculos) não apenas resultou na vitória dos moradores do Casqueiro contra a tentativa do prefeito, como desta luta saiu e se fortaleceu a candidatura da prefeita petista eleita em 2008 e reeleita em 2012.

Não passou pela cabeça dos detratores pró-leilão que exatamente porque boa parte dos cutistas, fupistas são petistas para eles a decisão de se opor e se mobilizar, entrando inclusive em greve contra o leilão do Campo de Libra foi uma decisão ainda mais difícil?

Não é fácil sendo de esquerda e tendo lutado para eleger Dilma conviver com um governo que não dialoga com os movimentos sociais e com todas as categorias sindicalizadas que igualmente lutaram bravamente para eleger este governo. Ao recusar a prática do diálogo a presidenta Dilma está caminhando num terreno muito arriscado. Seu governo já afastou professores universitários das federais porque se recusou a debater com a categoria e olhem que só o blog Maria Frô publicou umas 50 cartas de professores, reitores etc. em apoio à Dilma durante a campanha de 2010.

Em minha avaliação foi um erro político imenso a decisão de fazer o leilão sem antes debater, explicar os pontos do governo, esgotar esta discussão e para piorar fazê-lo num hotel de luxo, na cidade que hoje é o epicentro das revoltas contra um governo truculento do qual o PT é ainda, infelizmente, aliado e causa inúmeros desconfortos aos petistas que têm compromisso com os movimentos sociais e com bandeiras históricas do PT.

Para completar o governo, por meio do Ministério da Justiça, mobilizou mais de mil homens da Força Nacional para reprimir o direito legítimo de se manifestar dos que eram contrários ao leilão.

As cenas que vi ontem via os celulares dos midialivristas ou pela mídia institucional foram deprimentes: a Força Nacional contra 20 gatos pingados na rua. A Força Nacional contra bandeiras vermelhas da FUP, da CUT. A Força Nacional reprimindo uma categoria que tem uma importância histórica na defesa do patrimônio nacional e no enfrentamento da sanha privatizadora da era FHC como poucas vezes se viu.

Quem tem um mínimo de memória sabe que foram os petroleiros que chegaram a ocupar as refinarias por mais de 30 dias no segundo ano de governo do primeiro mandato de FHC. Em 1995 eles foram criminalizados, ameaçados com exército na porta, todos os dias manchetes criminosas contra eles, mas eles resistiram e a Petrobras foi salva das mãos privatistas tucanas.

Daí ver militantes governistas avessos a qualquer crítica tratar Jose Sergio Gabrielli de Azevedo como um ressentido fracassado é de uma crueldade absurda, mas tratar petroleiros como inimigos é de uma inabilidade política sem precedentes.

Eles entraram em greve contra o leilão porque defendem que com a tecnologia e a capacidade da Petrobras conseguir recursos, poderíamos ter 100% do pré sal e não 40% como passou a ter pós-leilão.

Eles sabem que a Petrobras é a única empresa do mundo a ter a tecnologia de extração do pré-sal. Na partilha vai haver transferência de tecnologia? Chineses vão chegar com seus trabalhadores (o governo chinês trabalha assim) os milhões de empregos gerados ao longo dos 35 anos serão também de uma nação que tem quase 1,5 bilhão de habitantes e vem ocupando o continente africano nestes moldes. Qual será o próximo passo, a xenofobia?

E os petroleiros foram colocados na categoria dos ‘blackbostas’…

Não se trata uma categoria com a trajetória de luta à esquerda e nacionalista dos petroleiros como ‘bandidos’, ‘blackbostas’, ‘oportunistas’, ‘que só sabem defender seus interesses corporativos’ e outros absurdos que li. O Partido dos Trabalhadores foi forjado na luta destes companheiros, o inimigo de classe certamente não está na categoria dos petroleiros. Assim tratá-los como inimigos, botando a Força Nacional pra baixar o cacete neles não me parece só crueldade é de uma inabilidade politica que achava fosse restrita apenas a sujeitos feito Cabral.

Tenho discutido sobre como alguns militantes de esquerda criminalizam as manifestações que ocorrem no Brasil a partir de junho. De todos a tática black bloc é a que mais causa repulsa neste grupo à esquerda que não aceita nenhuma espécie de questionamento ao governo sem tratar os críticos como tucanos, marinistas, dudistas ou ultraesquerdistas (que para esses governistas são sinônimos).

Esses rapazes e gurias que botam máscaras não podem ser tratados como um bloco único. Aliás, para ir em manifestação desde pelo menos 2009 ao menos em São Paulo, a imprensa institucional usa máscaras (e não só as ideológicas), descrevi isso quando tomei banho de spray de pimenta na frente da prefeitura na época das enchentes em que o Jardim Romano ficou 2 meses submerso. À época foi a primeira coisa que me chamou a atenção: por que fotógrafos e repórteres da Folha e afins com identificação estavam com máscaras? Só depois de quase ter morrido intoxicada com os gases das polícias lançados em nós é que entendi.

Mas, para quem não sai às ruas e fabrica sua visão de mundo por meio do PIG que tanto critica, mas não deixa de assistir, ler e ouvir, proponho um exercício simples: pergunte aos professores do Rio de Janeiro se eles apanharam da polícia ou dos black bloc. Pergunte a todos que foram nos esculachos da rede Globo quando trocamos o nome da ponte para Wladimir Herzog e pichamos eletronicamente a Globo se algum black bloc nos agrediu ou quebrou algo. Detalhe, apesar da tropa de choque presente nos acompanhando no 11 de julho, ela não nos atacou.

Não dá para idealizar nada, muito menos jovens revoltados, mas criminalizar é o pior dos caminhos, tem de tentar entender e claro buscar de alguma forma mediar a comunicação com esta juventude que não acredita mais na política institucional.

O caminho certamente é bem mais complexo que só achá-los baderneiros e vibrar quando a mesma polícia que mata Amarildos nas favelas de todo o Brasil desce o cacete neles. Ao invés disso deveríamos estar com um projeto no Congresso para recriar a Força Pública, uma polícia cidadã, e desmilitarizar esta herança da ditadura militar que só serve pra espancar e matar trabalhador.

Neste andar da carruagem como será o debate eleitoral travado nas redes?

A maior parte do debate que vi travado nos dias que antecederam o leilão foi reduzido a uma desqualificação das pessoas, um abandono completo dos argumentos (incluindo técnicos e políticos). Era só xingamento, detratação, parece que parcela destes governistas tomaram da água dos piores estereótipos da direita que conhecemos na rede.

Fico me perguntando se esta será a postura da rede militante pró-Dilma em 2014. Tenho cá pra mim que isso mais afasta que agrega, que isso mais cria repulsa que convence, que isso reduz por demais o espectro que se deseja atingir.

Se os militantes governistas pró-Dilma não ouvem e querem silenciar até mesmo aqueles que apoiam o governo, mas divergem por vezes, como farão para convencer os eleitores sem filiação ou simpatizantes?

Quer categoria mais fiel ao projeto do PT do que a dos petroleiros que enfrentou Fernando Henrique e sua sanha privatizadora quando os petroleiros decidiram ocupar por 32 dias as refinarias do Brasil? Como tratar essa categoria como oportunista, traidora e outros epítetos de baixo calão?

Tenho certeza que não foi isso que o Lula tinha em mente quando convocou os militantes petistas a irem para a rede defender o projeto político do PT e as conquistas sociais dos governos capitaneados por ele e Dilma.

Para terminar, reproduzo o post da Hilde (posso imaginar o que ela ouviu por ter feito a campanha que fez na rede contra o leilão) com os pontos levantados pela Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET) que afirma que a estatal teria como garantir a exploração de Libra. E como ironicamente diz o Gindre: “Mas, eles também não devem entender nada do assunto. Quem sabe mesmo de Petróleo somos nós aqui no Facebook“.

Publicado em 22/10/2013 em Blog da Maria Frô.