O povo brasileiro vai se sentir impotente e acuado, se a presidenta insistir no leilão. Sabemos que a palavra final é dela. Nessa hora se reconhecem os verdadeiros estadistas.
Por mais críticas que se faça ao governo Lula, é dele o mérito de resgatar o orgulho de ser brasileiro. Por mais que critiquemos o altíssimo custo cobrado do povo para trazer ao Brasil a Copa do Mundo e as Olimpíadas, no momento em que fomos escolhidos entre tantos países, confesso: deu um orgulho no peito.
Hoje já se sabe, por meio da experiência, que esses grandes eventos só servem para enriquecer empresários e políticos corruptos, para expulsar as pessoas comuns de suas moradias e das áreas mais valorizadas das cidades, para embranquecer e elitizar a frequência dos estádios, para agravar o abismo entre pobres e ricos. Mas lá trás, confesso que me deixei embalar em ilusões e senti orgulho de ser brasileira.
Também me senti orgulhosa quando começou a mudar a frequência dos shoppings. Negros e pobres já podiam entrar como simples consumidores. Não mais eram seguidos pelos olhos desconfiados dos vigilantes, quando não submetidos a constrangimentos e agressões. Confesso que me emocionei quando percebi pela primeira vez, nas ruas, que estava acontecendo uma mudança de cultura, com mais brasileiros andando de cabeça erguida. Na época, pensei que bastava isso para justificar meu voto em Lula. O governo Dilma está revertendo rapidamente a mão dessa história. Num choque de realidade, as ilusões se desfazem. As jornadas de julho revelaram as vísceras dos podres poderes. Apesar disso, graças à disposição revelada por jovens com máscaras e sem máscaras, pequenas-grandes vitórias foram obtidas pelo povo e renovaram a fé no futuro. Uma nação soberana só se constrói assim, com a capacidade das novas gerações incorporarem as causas coletivas e lutarem por direitos.
No entanto, um muro se ergue na hora de atingir o cerne da questão. Como revelar a promíscua relação entre políticos corruptos, empresários corruptores, milicianos e crime organizado. Trata-se de uma aliança formada nos impenetráveis bastidores que sustentam instituições decadentes e viciadas, como a Câmara de Vereadores do Rio e tantas outras. Por isso a CPI dos ônibus deu no que deu, em pizza. Apesar de toda a pressão e inventividade das ruas.
A presidenta Dilma está numa encruzilhada. Em suas mãos está o destino do nosso povo. Não se trata apenas de uma questão econômica. É algo que faz a diferença na hora de torcer pelo time, lutar por direitos, ter orgulho de si mesmo, da terra, da cidade, do país. Ela pode aplicar um golpe de morte na nossa brasilidade e na nossa insipiente autoestima. Ou pode elevá-la.
Lamentavelmente, o governo parece optar pelo caminho estreito da velha política. Articulistas simpáticos à presidenta recorrem a sofismas e, com a incrível capacidade de distorcer a realidade, tentam justificar o injustificável, ou seja, a manutenção do leilão de Libra, mesmo depois de todas as denúncias e ilegalidades divulgadas, culminando com a espionagem comprovada dos “five eyes” (Estados Unidos, Canadá e Reino Unidos, Austrália e Nova Zelândia) sobre Dilma, seus principais assessores, a Petrobrás e o pré-sal.
Minimizar as consequências dessa espionagem e manter o leilão é como um estupro consentido. No caso, a vítima é a nação brasileira. O algoz, o imperialismo. É mais ou menos como, quando uma mulher, vítima de espancamento, prefere se omitir (por medo) a denunciar seu agressor. Essa atitude costuma estimular o agressor a espancá-la cada vez mais e com mais força.
O povo brasileiro vai se sentir impotente e acuado, se a presidenta insistir no leilão. Sabemos que a palavra final é dela. Nessa hora se reconhecem os verdadeiros estadistas.
Manter o leilão é abaixar a cabeça e envergonhar o nosso povo, atingindo em cheio a nossa autoestima que o presidente Lula teve o cuidado de valorizar e soerguer durante o seu governo, não importa se com erros ou acertos na política econômica.
No cenário que se divisa, a presidenta Dilma poderá até ganhar a eleição. Provavelmente porque não terá adversário confiável ao povo em condições de derrotá-la, em face do sistema eleitoral bancado por empresários, latifundiários, banqueiros e financistas. Mas terá que governar um povo triste, cabisbaixo e conformado. Que não terá muito a comemorar, pois terão acertado em cheio na sua autoestima. Um povo assim tem pouca condição de reagir à dominação externa.
Fica um apelo. Existe muita coisa em jogo, presidenta. Dê ouvidos aos rebeldes. Neles está nossa esperança de futuro. O mais importante, nesse momento, é investir no orgulho de sermos a soberana Nação Brasileira.
Fonte: Agência Petroleira de Notícias