Durante 15 dias cobri as férias de Paulo Passarinho e fui o âncora do programa Faixa Livre, na rádio Bandeirantes AM (1. 360). O Faixa Livre é transmitido de segunda a sexta, das 8h às 10h.
Todos os dias o programa é aberto com um editorial, redigido e lido pelo âncora. O de hoje, meu último dia, foi sobre o programa Mais Médicos e a importação de profissionais de saúde estrangeiros. Eu o reproduzo abaixo: Neste editorial vamos voltar à questão do Mais Médicos, programa do governo federal que trará médicos estrangeiros para atuar em regiões do país que não têm profissionais de saúde.
Como se sabe, eles começaram a chegar semana passada. Vão trabalhar nos 701 municípios que têm os piores índices de desenvolvimento humano do país, 84% no Norte e no Nordeste. Nesse debate, tem-se misturado problemas reais com preconceitos políticos, particular mente em relação aos médicos cubanos.
De Cuba virão quatro mil médicos. É o país que mais vai ceder profissionais para o programa do governo federal. Para abordar a questão de forma objetiva, vamos abrir nosso comentário usando trechos de artigos do jornalista Hélio Doyle. Membro do núcleo de estudos cubanos da Universidade de Brasília, Hélio Doyle traz elementos importantes para o debate.
Doyle com a palavra. “A grande imprensa brasileira não conta que médicos cubanos já trabalharam no Brasil, atendendo a comunidades pobres e distantes nos estados de Tocantins, Roraima e Amapá. Não houve reclamação quanto à qualidade do atendimento ou problemas relacionados com o conhecimento da língua portuguesa. Os cubanos tiveram de deixar o Brasil por pressão do corporativismo médico brasileiro – liderado por doutores que gostam de trabalhar em clínicas privadas e nas grandes cidades.” A grande imprensa não conta também que há mais de 30 mil médicos cubanos trabalhando em 69 países da América Latina, da África, da Ásia e da Oceania, lidando com pessoas que falam inglês, francês, português e dialetos locais. Só no Haiti, onde a população fala francês e o dialeto creole, há 1. 200 médicos cubanos. Eles sustentam o sistema de saúde daquele país e, como profissionais com alto nível de educação formal, aprendem rapidamente línguas estrangeiras.
O professor John Kirk, da Universidade Dalhousie, no Canadá, estudou a participação de equipes de saúde de Cuba em diferentes países. É dele a frase seguinte: “A contribuição de Cuba, como ocorre agora no Haiti, é o maior segredo do mundo. Os médicos cubanos são pouco mencionados, mesmo fazendo muito do trabalho pesado”. É segredo porque a imprensa internacional – especialmente a estadunidense — não gosta de falar do assunto. Kirk contesta o argumento de que os médicos cubanos que atendem as comunidades pobres em vários países não são eficientes por não dominar as últimas novidades tecnológicas no ramo da medicina: “A abordagem high-tech usada em Londres e Toronto é irrelevante para milhões de pessoas no Terceiro Mundo que estão vivendo na pobreza. É fácil ficar de fora e criticar a qualidade, mas se você está vivendo num lugar sem médicos, ficaria feliz quando chegasse algum”. “Os que contestam a vinda de médicos estrangeiros e, em especial dos cubanos, esquecem que as pessoas que passam anos ou toda a vida sem ver um médico ficarão muito felizes quando receberem a atenção que os corporativistas do Brasil lhes negam e tentam impedir.” Em outro artigo, Hélio Doyle começa lembrando uma citação é do New England Journal of Medicine, publicação especializada em saúde dos Estados Unidos: “O sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.
E Hélio Doyle prossegue: “Menções elogiosas ao sistema de saúde cubano e a seus profissionais são frequentes em publicações especializadas e feitas por autoridades médicas e organizações internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, a Organização Panamericana de Saúde e o Unicef. Mas mesmo assim, querendo negar a realidade, médicos e políticos brasileiros insistem em negar o óbvio, chegando ao absurdo de dizer que nossa população está correndo riscos ao ser atendida pelos cubanos.” Para começar, os indicadores de saúde em Cuba são os melhores da América Latina e estão à frente dos de muitos países desenvolvidos. A mortalidade infantil, por exemplo (4,8 mortes por mil crianças nascidas), é menor do que a dos Estados Unidos. Aliás, para os que gostam de dizer que Cuba estava melhor antes da revolução de 1959, naquela época era de 60 mortes por mil nascimentos. A expectativa de vida dos cubanos é também elevada: 78,8 anos.
Outra informação que os saudosistas da época do capitalismo em Cuba devem levar em conta, afirma Doyle: “Em 1959, Cuba tinha seis mil médicos, sendo que três mil correram para os Estados Unidos quando viram que não haveria mais lugar para o sistema privado de saúde e que os doutores elitistas e da elite perderiam seus privilégios. Hoje o país tem 78 mil médicos, um para cada 150 habitantes, uma das melhores médias do mundo. Isso permite a Cuba manter mais de 30 mil médicos no exterior. Desde 1962, médicos cubanos já estiveram trabalhando em 102 países. Em 2012 formaram-se em Cuba 5. 315 médicos cubanos em 25 faculdades públicas. Desses, 5. 694 são estrangeiros, que estudaram de graça na Escola Latino-americana de Medicina (Elam). A Elam recebe estudantes de 116 países, inclusive dos Estados Unidos, e já formou 24 mil estrangeiros. “Os médicos cubanos se formam após seis anos de graduação, incluindo um de internato, e mais três ou quatro anos de especialização. Os generalistas, que atendem no sistema Médico da Família (que conta com um médico e um enfermeiro para 150 a 200 famílias, e que moram na comunidade que atendem) são preparados para atuar em clínica geral, pediatria, ginecologia-obstetrícia e fazer pequenas cirurgias. Dos quatro mil médicos que vêm para o Brasil, todos têm especialização em medicina de família, 42% já trabalharam em pelo menos dois países e 84% têm mais de 16 anos de atividade. Grande parte já atuou em países de língua portuguesa, na África e em Timor-Leste. Foi em Timor, a propósito, que ocorreu o fato seguinte: o embaixador estadunidense exigiu do então presidente Xanana Gusmão que expulsasse os médicos cubanos. Xanana perguntou quantos médicos dos Estados Unidos havia no Timor-Leste e quantos o país mandaria para substituir os mais de 200 cubanos que estavam lá. Diante da resposta, de que havia apenas um, que atendia os diplomatas norte-americanos, e que não viria mais nenhum, Xanana, simplesmente, disse que os cubanos ficariam. E estão lá até hoje. Falando português.”
Aqui se encerra a leitura dos artigos de Hélio Doyle. Mas eu gostaria de fazer outros comentários. Nós debatemos aqui no Faixa Livre o programa Mais Médicos e a proposta de importação de médicos. Trouxemos tanto médicos defensores, como críticos do projeto. Ambos têm argumentos válidos. Tem razão, por exemplo, o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro, Jorge Darze, quando afirma que o problema é estrutural e que é preciso investir no SUS e na saúde pública, montando um plano de carreira e oferecendo melhores condições de trabalho para os médicos que forem para o interior do país. Esta, sim, seria a questão de fundo. Darze é contrário o Mais Médicos. Já outro médico que esteve aqui no Faixa Livre, Cid Nelson Hastenhaiser, concorda com o diagnóstico de Darze sobre a saúde no país e se soma a ele na defesa do SUS e na denúncia do abandono da saúde pública. Mas apoia a vinda de médicos estrangeiros como medida emergencial para regiões do país que não têm médicos. Mesmo com condições de trabalho precárias, é melhor que a população tenha um médico para atendê-la do que não ter ninguém, diz Cid Nelson. Mas agora o debate na sociedade em torno a essa questão – que começou de forma civilizada — está ganhando um rumo inaceitável. Entidades de representação dos médicos brasileiros têm demonstrado um corporativismo absurdo e completo desprezo pela população desassistida. A coisa está indo longe demais. O presidente do Conselho Regional de Medicina do Paraná, Alexandre Bley, por exemplo, ameaça acionar a polícia contra os médicos estrangeiros, impedindo-os de atender à população carente, sob o argumento de que estariam exercendo ilegalmente a profissão no Brasil. Seu colega de Minas Gerais, também presidente do Conselho Regional de Medicina, João Batista Gomes Soares, é outro que destila idiotices. Diz que vai orientar os médicos mineiros a não corrigirem eventuais erros de colegas estrangeiros contratados pelo programa Mais Médicos. Por essa afirmação se vê a total falta de compromisso desse cidadão com os pacientes. Diferentemente do que afirmam dirigentes de entidades dos médicos, essas atitudes, sim, é que são casos de polícia. E ferem frontalmente a ética médica. Mas não haverá quem puna por falta de ética os médicos que apregoam tais barbaridades. Os conselhos que eles presidem é que julgam os médicos que ferem a ética. Como se vê, o caso está mal parado. E a população está em maus lençóis.