Artigo

A nossa Petrobrás

Data da publicação: 16/05/2014
Autor(es): Ranulfo Vidigal

O petróleo tem como característica básica a existência de suas reservas em áreas específicas do planeta. Neste contexto, o mundo desenvolvido, com destaque para a Europa, importa 70% de seu consumo diário. O óleo jorra em regiões como os países árabes, onde a produção é de baixíssimo custo, mas os conflitos são intensos; ou nos países africanos, em processo de forte expansão diante da presença chinesa; ou no Brasil, vivendo mais recentemente uma nova realidade potencial, diante da província petrolífera da camada pré-sal, fortemente concentrada na região compreendida entre o sul do Espírito Santo e Santa Catarina.

Este recurso não renovável tem um ciclo longo de investimentos, sujeito a incertezas e a marcos regulatórios diferenciados. Sua oferta é praticamente fixa, no curto prazo, e muito relacionada a fatores geopolíticos. Já sua demanda de 85 milhões de barris diários apresenta forte correlação com o comportamento da renda real dos países.

Além deste fator sofre também a influência da taxa internacional de juros, pois é um ativo financeiro e seus contratos negociados nas principais praças internacionais apresentam alta liquidez. Neste segmento, as empresas operam em um mercado oligopolizado, onde atuam organizações de capital privado e companhas nacionais do petróleo, onde se destaca a Petrobrás.

O fator energia exerce um papel estratégico no planejamento de longo prazo de qualquer nação. A China, por exemplo, diante de sua acelerada expansão econômica, prioriza o acesso aos recursos que permitam segurança de suprimento e auto-suficiência, através de parcerias ao longo do planeta. A Rússia, grande produtora de gás, usa todo seu poderio como fornecedora da Europa, como estamos vendo neste momento no conflito da Ucrânia. Isto prova de forma cabal a expressiva politização desta commodity.

Se na década de 1980 ocorreu um expressivo desenvolvimento tecnológico responsável por forte elevação da relação reservas/produção, entre 1990 e 2005 a inovação não compensou as dificuldades geológicas crescentes. O resultado foi maior dependência de importações no mundo, crescente escassez e um movimento na direção da nacionalização das reservas.

Desde 2005, entretanto, entrou no cenário a expansão da fronteira geológica associada ao petróleo não convencional presente na Venezuela, Argentina, China, Canadá e Estados Unidos. Embora tenhamos que reconhecer os aspectos negativos na questão ambiental, o planejamento norte-americano é de forte expansão de produção e tentativa de auto-suficiência energética, como decorrência dessa nova alternativa de combustível, com provável impacto positivo sobre a competitividade industrial da maior nação do planeta.

Neste contexto, é preocupante a crescente fragilidade de nossa estatal criada por Getúlio Vargas. Trata-se de uma empresa que já detém a tecnologia de exploração de águas profundas. Possui uma força de trabalho de alta qualidade no seu quadro de 65 mil servidores. Gera impostos anuais de R$ 75 bilhões e necessita estar adequadamente capitalizada para transformar as potencialidades de produção da exploração da camada pré-sal em realidade concreta, mesmo diante de uma conjuntura de queda dos preços associada a uma conjuntura internacional de estagnação e oferta crescente de alternativas energéticas.

FONTE: Monitor Mercantil