Ex-diretores da Petrobrás se manifestam contra leilão de Libra
RIO – Ex-diretores da Petrobrás se uniram a várias entidades civis, como o Clube de Engenharia, o Sindipetro-RJ e a Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET), para pedir a suspensão do leilão da área de Libra, no pré-sal da Bacia de Santos, que o governo vai realizar no próximo dia 21. Em um evento realizado nesta quinta-feira no Clube de Engenharia, em homenagem aos 60 anos de criação da Petrobrás completados nesta quinta-feira, os ex-diretores de Exploração e Produção da Petrobrás Guilherme Estrella e de Gás e Energia Ildo Sauer defenderam, em discursos emocionados e enfáticos, o cancelamento do leilão. O diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, presente ao evento, também defendeu a suspensão alegando que o volume das reservas de Libra estimadas entre 8 bilhões a 12 bilhões é muito grande para ser ofertado de uma só vez.
O ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobrás Guilherme Estrella disse ser contra o leilão de Libra por ter um elevado volume de reservas, superior a 10 bilhões de barris e segundo ele, o petróleo e gás natural é uma questão de geopolítica internacional e de soberania nacional. Estrella lembrou que a Petrobrás, na década de 80, descobriu o campo gigante de Majnon no Iraque, e o então governo iraquiano pediu que a estatal saísse daquele país, por serem reservas muito grandes.
– Na minha opinião de estratégia sob o ponto de vista geopolítico não seria interessante que nós tivéssemos sócios ainda que estrangeiros de países amigos. Então a minha esperança, e um apelo que todos nós fazemos, é que a presidenta da República (Dilma Rousseff), que é uma nacionalista, e eu sou testemunha disso, (…) suspenda o leilão e abra para discussões. Esse foi um grande pecado. As decisões foram tomadas sem ouvir a sociedade organizada – destacou Estrella.
O diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, por sua vez disse ser contra o leilão de Libra porque é um campo muito grande, com elevadas reservas.
– Libra é grande demais. Acho que não deveria ser colocado inteiro para leilão um campo desse tamanho. As reservas brasileiras estão em torno de 15 bilhões de barris de petróleo, e se fala que esse campo possa ter mais de 10 bilhões, ou seja, é quase o dobro. Não há necessidade a não ser por um critério de atração por dólares externos – destacou Pinguelli.
Segundo o diretor da Coppe/UFRJ, o que está em questionamento não é nem o novo regime de Partilha da produção que vai regular a exploração no pré-sal, mas sim esse volume grande das reservas de Libra. Pinguelli disse que poderiam ser ofertados áreas menores.
– É muito petróleo de uma vez só, ainda mais para dar para os chineses (referindo-se à participação das empresas chinesas). A política energética do Brasil está toda errada, desde o setor elétrico, no qual as companhias estão com enormes dificuldades, ao setor de petróleo, que é essa maluquice desses preços no qual a Petrobrás importa e vende pela metade do preço os derivados, refinarias atrasadas. Enfim, uma série de problemas – disse Pinguelli.
O ex-diretor Estrella ainda lembou que a Petrobrás sempre teve controle de preços dos combustíveis pelo governo federal por ser uma empresa estatal.
– Desde o seu nascimento, a Petrobrás sempre foi uma ferramenta, não é uma empresa de governo. A crítica ao controle de preços é válida, mas tem que ser inserida dentro desse contexto limitador que é uma empresa estatal e empresa de governo – disse Estrella.
O ex-diretor de Gás e Energia da Petrobrás Ildo Sauer também defendeu o cancelamento imediato do leilão de Libra, devido à importância que as elevadas reservas de petróleo no pré-sal podem podem trazer ao mapa geopolítico do país. Segundo Ildo Sauer, o Brasil deveria primeira fazer uma campanha exploratória para saber exatamente o volume das reservas que tem no pré-sal.
– É preciso aprofundar a reflexão em função do papel estratégico que o petróleo tem. Precisamos olhar para o futuro. Precisamos fazer uma campanha exploratória para se saber se temos 100 bilhões, 200 bilhões ou 300 bilhões de barris em reservas. O papel do país diante dessa realidade será outra, por isso não podemos entregar do jeito que estamos entregando nossas riquezas – destacou Ildo Sauer.
O Globo