A mudança no marco regulatório do pré-sal para partilha trouxe incerteza, mas a atratividade do Brasil no setor de óleo e gás ainda é relevante na opinião de Paula Kovarsky, vice-presidente de Pesquisas responsável pela área de petróleo, gás e petroquímica do Itaú BBA. Contudo, a criação do regime de partilha, que terá sua estreia com o leilão do campo de Libra, sobrecarrega a Petrobrás, segundo o banco. O Itaú BBA revisou as curvas de produção de petróleo da estatal e a expectativa é de que, pelo segundo ano consecutivo, não consiga atingir o limite inferior da meta – que é de 2% acima ou abaixo dos 2,021 milhões de barris/dia produzidos em 2011 – o que pode ficar para 2014 e 2015.
Engenheira de produção e ex-executiva da Shell Brasil, Paula analisa os impactos da desvalorização do real sobre a Petrobrás e questiona o momento em que foi adotada a contabilidade de “hedge”. Apesar de necessários para compensar as perdas da Petrobrás com o câmbio, ela acha pouco provável correção da defasagem nos preços do diesel e gasolina no curto prazo. A seguir a entrevista:
Valor: Qual a avaliação sobre o atual momento da Petrobrás?
Paula Kovarsky: Na nossa visão a Petrobrás está realmente passando por mudanças positivas e importantes, refletindo a mudança da gestão da empresa. Mas mover um transatlântico do tamanho da Petrobrás não é uma tarefa fácil e que a empresa continua sendo uma peça-chave para o crescimento do país. No momento atual achamos pouco provável que a defasagem nos preços de diesel e gasolina, causados pela desvalorização do real, seja repassada aos consumidores, pelo menos no curto prazo.
Valor: Quando a produção da Petrobrás vai reagir?
Paula: Fizemos recentemente uma extensa revisão na nossa curva de produção. Para este ano vemos risco de a empresa não entregar o limite inferior da meta, mas estamos mais confiantes de que a produção vai crescer em 2014 e 2015. O pré-sal é uma realidade e vem surpreendendo positivamente em termos de produtividade. Ainda veremos atrasos, principalmente nos projetos que dependem de plataformas construídas no Brasil, e o desenvolvimento de infraestrutura ainda vai pesar na conta, mas as coisas estão evoluindo. Já a Bacia de Campos, ainda é fonte de preocupação. A falta de foco nesta bacia aparentemente não causou danos relevantes aos reservatórios, o que significa que é possível recuperar produção através do restabelecimento da eficiência e através de paradas para manutenção. Mas estas paradas significam perda de produção no curto prazo, além de aumento nos custos, e tudo isto precisa ser muito bem gerenciado.
Valor: Qual o efeito da desvalorização do real para a Petrobrás?
Paula: Até a linha do Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciações e amortizações), o impacto do câmbio não é tão relevante uma vez que a empresa tem certo equilíbrio entre receitas e despesas em dólares e reais. Para cada 10% de desvalorização do real, o impacto negativo no Ebitda é da ordem de 5%, principalmente devido ao aumento do custo das importações. O impacto no lucro é muito mais relevante. Além disso, a dívida da empresa aumenta em reais, estressando ainda mais o balanço da Petrobrás. A única forma de enxergar a desvalorização como algo positivo seria apostar em novo aumento de gasolina e ou diesel. Nada é impossível, mas a escalada da inflação, aliada aos recentes protestos contra os aumentos no transporte público, não parecem deixar muito espaço para o governo aumentar preços.
Valor: O balanço melhora com a nova contabilidade?
Paula: A contabilidade de hedge reduz bastante o impacto de variação monetária, reduzindo a volatilidade dos lucros. No segundo trimestre, a variação monetária cai de R$ 10 bilhões para R$ 3 bilhões, aumentando o lucro contábil e consequentemente o pagamento de dividendos. Mas o uso da contabilidade de hedge para a Petrobrás tem suas fraquezas, já que apesar de possuir receitas de exportação em dólar ela é hoje importadora líquida. O argumento de que a atividade de exploração e produção de petróleo é dolarizada também é questionável, na medida em que a empresa não tem garantia de paridade internacional imediata nos preços de derivados.
Valor: Qual a expectativa para o leilão de Libra considerando o bônus de R$ 15 bilhões?
Paula: A ideia inicial era cobrar um bônus de assinatura mais baixo e capturar a renda do pré-sal através de royalties e partilha da produção. Mas o bônus de assinatura teve que cumprir sua parcela de ajuda para atingir a meta de superávit primário desse ano. A Petrobrás argumenta que o plano estratégico já contemplava investimentos em leilões de pré-sal, mas acreditamos que a premissa sobre o tamanho do bônus de assinatura era bem mais conservadora.
Valor: O atraso na criação da Pré-Sal Petróleo S.A. (PPSA) pode prejudicar o leilão de partilha?
Paula: O processo como um todo pode prejudicar a participação de outras empresas no leilão. A ANP tem sido muito diligente em disponibilizar os editais sempre cerca de seis meses antes dos leilões de concessão, além de manter consistência nos contratos dos últimos onze leilões. Justamente quando se introduz um novo marco regulatório, a indústria terá muito menos tempo para analisar os contratos. Detalhes importantíssimos como a forma de cálculo do custo do óleo só foram definidos agora, e precisam ser bem digeridos por todos. Outro ponto importante é o poder que a PPSA terá nos comitês operacionais. Isso pode assustar empresas internacionais, além da cláusula que fala de declaração de situação de emergência pelo governo, impedindo a exportação do óleo.
Valor: Qual o efeito para a Petrobrás se ela tiver participação em Libra maior que os 30%?
Paula: Esses 30% de participação equivalem a R$ 4,5 bilhões ainda este ano, o que não é pouco dinheiro nem para a Petrobrás. E 50% custariam à empresa R$ 7,5 bilhões em bônus de assinatura. Um campo de 8 bilhões a 12 bilhões de barris de óleo equivalente (boe) necessitaria de algo entre US$ 70 bilhões e US$ 100 bilhões para ser desenvolvido e a Petrobrás terá de aportar sua participação. Esse investimento tem retorno muito menor que os investimentos no pré-sal sob regime de concessão ou da própria cessão onerosa. Sendo a Petrobrás a operadora obrigatória, corre-se o risco de afastar as “”oil majors””. Isso aumenta a probabilidade de a Petrobrás ter como sócias empresas com baixo custo de capital pagando caro pelo ativo e sem muito a contribuir do ponto de vista operacional.
Valor: Qual a leitura que fazem do atual momento do setor?
Paula: A decisão de alterar o marco regulatório do pré-sal para partilha trouxe incerteza para o setor, mas ainda assim a atratividade do Brasil é relevante, levando-se em consideração estabilidade política, econômica e institucional deste país, apesar das recentes turbulências. Mas o mundo não para enquanto resolvemos nossas questões internas e outras regiões podem competir por recursos [como África e México]. O conteúdo local nos parece o grande risco. Outros países mundo afora desenvolveram suas indústrias de equipamentos e serviços através de proteção para as empresas locais. O problema do Brasil é que quem está pagando esta conta, em grande parte, é a Petrobrás. Isso limita sua capacidade de investimento e de crescimento de produção. Ter a Petrobrás como única operadora do pré-sal mantém a concentração nas contratações, o que também é visto como risco, sem falar na inflação de custos e mão de obra, falta de qualificação, etc.