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Cientistas alertam para a exploração de xisto

Data da publicação: 07/11/2013

Estudiosos demonstram preocupação com a exploração de blocos exploratórios de xisto, que fará parte da 12ª Rodada de Licitações da Agência Nacional de Petróleo (ANP), marcada para este mês

À frente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) a da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Bonciani Nader e Jacob Palis pedem em carta à presidenta Dilma a suspensão das licitações das áreas de gás de xisto na 12ª Rodada por um período suficiente para aprofundar os estudos realizados pelas instituições científicas e tecnológicas (ICTs) públicas do país. Querem ter certeza da real potencialidade da utilização da fratura hidráulica das rochas para obter o polêmico gás e também sobre os possíveis prejuízos ambientais provocados por sua exploração.

De acordo com a própria Agência Nacional de Petróleo (ANP), na 12ª. Rodada de Licitações serão leiloados 240 blocos exploratórios terrestres com potencial para gás natural em sete bacias sedimentares, localizados nos estados do Amazonas, Acre, Tocantins, Alagoas, Sergipe, Piauí, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Maranhão, Paraná, São Paulo. A área totaliza 168.348,42 quilômetros quadrados. Do total dos blocos que vão a leilão, 110 estão em áreas de novas fronteiras nas bacias do Acre, Parecis, São Francisco, Paraná e Parnaíba e outros 130 nas bacias maduras do Recôncavo e de Sergipe-Alagoas. Em todas elas serão exigidas a exploração de gás convencional e não convencional, segundo texto sobre o edital publicado no site da agência.

A extração do gás não convencional foi discutida exaustivamente na 65ª reunião da SBPC, em Recife, Pernambuco, realizada no último mês de julho. E foi exatamente com base no resultado das discussões que as duas entidades resolveram alertar o governo brasileiro sobre o caráter preliminar de levantamentos otimistas que pressupõem enormes reservas de gás de xisto no Brasil, que, se confirmadas, poderiam contribuir para impulsionar a economia do país.

A Agência Internacional de Energia dos Estados Unidos sugere que há, em solo brasileiro, reservas do gás da ordem de 7,35 trilhões de metros cúbicos nas bacias geológicas do Paraná, Parnaíba, Solimões e Amazonas, do Recôncavo e do São Francisco (as duas últimas bacias situadas no norte da Bahia e sul de Minas). Já a ANP estima que sejam muito mais do que isso: pelo menos, o dobro.

Sem qualquer propósito de estragar a festa de comemoração da fartura brasileira em gás de xisto, já considerado o combustível do século XXI – que nos EUA deve representar, de acordo com cálculos otimistas do próprio país, mais de 50% da oferta de energia nos próximos anos – , a comunidade científica adverte que falta conhecimento das características petrográficas, estruturais e geomecânicas das rochas consideradas para o cálculo das reservas brasileiras do shale gas – informação que altera significativamente a relação custo/benefício da extração do produto – , lembra que a sua exploração, apesar de se mostrar um sucesso econômico e tecnológico nos EUA, tem sido muito questionada pelos riscos e danos ambientais que acarretam e até mesmo põe em cheque os anúncios otimistas do país norte-americano sobre suas reservas internas do óleo.

O geólogo Luiz Fernando Scheibe, professor aposentado da Universidade de Santa Catarina, duvida, por exemplo, que as reservas norte-americanas sejam suficientes até mesmo para o abastecimento interno. Na sua avaliação, o óleo pode suprir o déficit energético dos EUA, tornando o país autossuficiente, mas não exportador mundial do produto, como alardeiam alguns norte-americanos. Em entrevista concedida à IHU On Line, revista produzida mensalmente pelo Instituto Humanitas Unisinos, ele revela que o xisto pode representar apenas 30% a 40% das reservas totais do país, que depende fortemente de fontes externas de petróleo.

Os Estados Unidos também não se mostram preocupados com a contaminação de sua água, tanto que no governo de George Bush a exploração do xisto foi isentada do atendimento às questões ambientais. “Eles têm um ato específico sobre a água potável, mas quando se trata de xisto essas determinantes não precisam ser atendidas. Isso chama a atenção para esta ânsia de explorar o gás não convencional”, disse o professor, acrescentando que ficou muito impressionado porque nos EUA diversas empresas contrataram o serviço de esgoto municipal para purificar a água utilizada durante a extração do produto, o que, na sua opinião, é ineficaz, uma vez que essas empresas possuem apenas determinada capacidade e estãos voltadas a um tipo de elemento químico.

No mundo inteiro, e até mesmo em alguns estados dos EUA, está havendo uma grande mobilização popular para impedir a extração imediata do produto. Na França e na Bulgária, a extração de xisto está suspensa. Em Nova Yorque, estado que fica ao lado da Pensilvânia, considerado o paraíso do xisto, sua obtenção foi proibida. Na Alemanha, está suspensa, enquanto no Canadá alguns estados proibiram o gás, caso de Ontário. Já a Inglaterra tenta fazer as primeiras perfurações, enquanto a população luta para impedir. Na China ainda há barreiras, inclusive burocráticas, para a regulamentação da extração do produto. A Shell, que tentou diversas maneiras de transformar camadas de xisto betuminoso em petróleo bruto desde 1981, anunciou que a empresa vai encerrar suas operações de pesquisa de xisto de petróleo no Colorado.

Os dirigentes da SBPC e da ABC relataram à presidente as formas diferentes da exploração do gás natural, do petróleo e do xisto, com o objetivo de adverti-la dos riscos econômicos embutidos na ilusão de ganhos imediatos. A exploração do gás natural e do petróleo ocorre em estruturas geológicas e nichos próprios. Já o gás de xisto impregna toda a rocha ou formação geológica. “Nesta condição, a tecnologia de extração de gás está embasada em processos invasivos da camada geológica portadora do gás, por meio da técnica de fratura hidráulica, com a injeção de água e substâncias químicas, podendo ocasionar vazamentos e contaminação de aquíferos de água doce que ocorrem acima do xisto”, afirma a comunidade científica brasileira na carta enviada à Dilma Rousseff.

O Brasil precisa, portanto, pesar na balança os ganhos e as perdas com a obtenção do xisto, uma vez que os aquíferos de água doce existentes em seu solo podem ser muito mais valiosos do que a extração do shale gas. Os cientistas advertem que o processo de obtenção de xisto exige grandes volumes de água, e elas vão retornar à superfície poluídas por hidrocarbonetos e por outros compostos e metais presentes na rocha, assim como pelos próprios aditivos químicos utilizados na extração do gás não convencional. E a purificação e o descarte dos resíduos exigem caríssimas técnicas. “A própria captação desta água pode representar uma forte concorrência com outros usos considerados preferenciais, como, por exemplo, o abastecimento humano”, dizem textualmente a SBPC e a ABC na carta enviada à presidente.

As duas entidades lembram que boa parte das reservas de óleo de xisto da bacia do Paraná, no Brasil, e parte das reservas do norte da Argentina situam-se logo abaixo do Aquífero Guarani, considerado a maior fonte de água doce de ótima qualidade da América do Sul. “Logo, a exploração do gás de xisto nessas regiões deveria ser avaliada com muita cautela, já que há um potencial risco de contaminação das águas deste aquífero.

“O geólogo Aldo Rebouças, do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade de São Paulo (USP), garante que o Aquífero Guarani é um oceano de água doce no solo do Brasil (que detém 75% do manancial), Argentina, Paraguai e Uruguai. Já haveria, inclusive, gestões da Organização das Nações Unidas (ONU) para transformar em recursos internacionais todos os mananciais de água transfronteiços do mundo. No Brasil, o Aquífero Guarani é apontado como solução imediata de abastecimento para centenas de cidades do interior de São Paulo.

FONTE: Jornal do Clube de Engenharia, edição nº 535 (outubro/2013).