Periódico

Por Dentro do Petróleo Ano 1 Nº 13 – Agosto 1994

Data da publicação: 01/08/1994
Autor(es): AEPET

Renovar o Congresso é essencial

Os institutos de pesquisa têm detectado um elevado índice de abstenção nas eleições para a renovação do Congresso Nacional. Muitos eleitores não parecem interessados em escolher deputados e senadores, decepcionados com o mau desempenho dos parlamentares na atual legislatura. Tal desencanto é compreensível, mas não se pode esquecer que o Congresso Nacional tem uma gama de poderes que em certos momentos, em determinadas circunstâncias, o torna mais importante que o Executivo. No Congresso estão reunidos os representantes do povo, que são em última instância os fiadores da democracia e os defensores da soberania nacional.

Mesmo os que estão desencantados precisam reconhecer, porém, que atual Congresso Nacional, embora seja um dos piores da nossa história, ainda assim tomou decisões fundamentais para o futuro do país e a consolidação da democracia. Foi este Congresso, tão duramente criticado, que atendendo aos anseios da nação aprovou por ampla maioria o impeachment de Collor – fato inédito em nossa história republicana. Foi este mesmo Congresso que iniciou a devassa em torno das fraudes que caracterizam a aprovação do Orçamento da União. E foi, também, este Congresso que evitou que os lobbies empresariais, capitaneados pela Fiesp e por representantes de grandes grupos multinacionais reescrevessem a Constituição à sua maneira, de acordo com seus interesses. Tentaram entregar para os países hegemônicos um patrimônio avaliado em 10 trilhões de dólares (monopólios, subsolo, minerais estratégicos, empresa nacional etc.), sem falar na biodiversidade, que é outro tanto.

Os lobbies empresariais voltarão à carga no ano que vem e estão financiando candidatos a peso de ouro para ver se conseguem montar um Congresso majoritariamente favorável às teses neoliberais, antinacionais, para depauperar o Estado, torná-lo mínimo e viabilizar uma ampla, geral e irrestrita abertura de nossa economia ao exterior. Ficar de braços cruzados perante a ação desses  lobbies é entregar os destinos do país a empresários inescrupulosos que não hesitam em fretar jatinhos para transportar parlamentares a Brasília para que votem de acordo com seus interesses, que não pestanejam em pagar viagens ao exterior a deputados e senadores e não têm qualquer problema de consciência em doar recursos aos maus parlamentares para que estes engordem suas declarações de bens através da compra de fazendas, apartamentos luxuosos, etc.

Para barrar essa ofensiva, para preservar os direitos sociais dos trabalhadores garantidos pela Constituição de 88, para evitar a privatização da Previdência Social, para evitar a entrega das riquezas de nosso subsolo aos trustes internacionais, é essencial que você não se omita. Não caia no canto da sereia dos que pregam o voto em branco ou nulo, dos que fazem o elogio da alienação política no momento em que a participação firme, consciente, ousada é essencial para que possamos criar um país em que a estabilidade econômica, a retomada do crescimento em bases sustentadas e a melhor divisão da renda e da riqueza caminhem juntas.

Numa democracia o voto é sua maior arma para influir na composição das forças que chegarão ao poder. Não se iluda com frases feitas, tipo. O Congresso não vale nada, não decide nada, os parlamentares só trabalham em causa própria etc. Não é verdade. Existem maus parlamentares, corruptos, venais, ociosos, entreguistas. Mas, existem deputados e senadores que honraram o mandato que receberam do povo e por isso merecem ser reeleitos. E existem candidatos novos, que estão disputando a eleição pela primeira vez, mas que merecem ser votados devido ao passado de lutas e honradez que enobrece suas biografias.

Reflita bem, procure se informar conversando com amigos e acompanhando o horário eleitoral gratuito, analise as propostas de cada candidato, avalie sua trajetória política e vote. Vote naquele candidato que está mais próximo das suas aspirações, que parece encamar mais fielmente o Brasil com que você sonha.

Muita gente, embora reconheça que o Congresso Nacional é importante para o futuro do pais e a consolidação da democracia, tem medo de votar no candidato errado, num parlamentar que depois irá trair sua confiança, seus ideais. Tal risco sempre existe. Mas, votando, você por outro lado tem a chance de escolher um candidato que depois vá enchê-lo de orgulho, pela sua atuação em defesa dos verdadeiros interesses nacionais. Votando você pode acertar ou errar. E quanto mais bem informado você for, menores as chances de errar.

E não votando, e se omitindo, e anulando seu votou ou deixando-o em branco, quais são suas chances de acertar? Nenhuma. Você optou por se alienar num momento crucial da história do país. Você se acovardou, você se omitiu e não usou seu voto como uma arma para impulsionar as transformações que a maioria da população deseja. Portanto, é muito melhor votar e correr o risco de errar do que não votar e, aí sim, errar com certeza.

Omissão, um crime imperdoável

O povo brasileiro lutou duramente durante 25 anos para recuperar o direito de eleger pela via direta os representantes do povo, em especial o presidente da República. Foi uma batalha com mortos e feridos, com perdas irreparáveis, que desembocou num regime de liberdades políticas, de direito à livre expressão de opinião e de reunião. Vivemos num regime de liberdade, mas ainda não somos uma democracia plena. Muitos brasileiros vivem nas águas turvas do analfabetismo, trabalham em regime de semiescravidão e não ganham sequer o suficiente para comprar a cesta básica. Para eles a cidadania, esteio da democracia, ainda não passa de um sonho distante, de uma palavra sem sentido, sem substância.

Num país com tais desigualdades e carências, a omissão na hora de votar é um verdadeiro crime, uma mutilação cívica, uma confissão de desprezo pela sorte dos deserdados, dos despossuídos.

Ninguém melhor do que o dramaturgo alemão Bertolt Brecht exprimiu os males da alienação política. Por isso, resolvemos reproduzir dois de seus mais conhecidos poemas a favor da liberdade de expressão e da participação política.

O Analfabeto Político

O pior analfabeto
é o analfabeto político
Ele não ouve,
não fala,
não vê
e não participa dos acontecimentos
políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,
preço do feijão,
do peixe,
da farinha, do aluguel,
do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito,
dizendo que odeia a política.

Não sabe o imbecil que
da sua ignorância política
nasce a prostituta,
o menor abandonado, o assaltante
e o pior de todos os bandidos:
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto
e lacaio das empresas nacionais e
multinacionais.

Aos Alienados

Primeiro levaram os comunistas…
Mas não me importei com isso,
eu não era comunista.

Em seguida levaram alguns operários…
Mas não me importei com isso,
eu também não era operário.

Depois prenderam os sindicalistas…
Mas não me importei com isso,
porque eu não sou sindicalista.

Depois agarraram uns sacerdotes…
Mas como não sou religioso,
também não me importei.

Agora estão me levando!
Mas já é tarde…

Bertold Brecht


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